O perigo da compulsão - VALOR ECONÔMICO - 20/03/08 |
Em termos de importância, a compulsão pelo jogo fica apenas atrás do álcool e do tabaco, superando calmantes e drogas ilícitas Não menos importante que o tema da legislação do pôquer on-line ou tradicional, mas ainda ausente dos debates, está a questão da saúde pública. Afinal, em termos de importância, a compulsão pelo jogo fica apenas atrás do álcool e do tabaco, superando calmantes e drogas ilícitas. Segundo pesquisa do psiquiatra Hermano Tavares, co-autor do livro "Manual Clínico dos Transtornos do Controle dos Impulsos" e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico da Universidade de São Paulo (USP), "1,5% da população, adulta e adolescente, é jogadora compulsiva e mais 1,5% está sob risco e tem um comportamento alterado sobre os jogos de azar". "Se você ainda pensar que o sujeito compulsivo, em geral, aposta valores que são de cinco a dez vezes maiores, apesar de não serem a maioria dos freqüentadores das casas de jogo, eles certamente respondem pela maior parte de seu faturamento", analisa o psiquiatra. A forma mais eficaz de combate a esse tipo de compulsão está na restrição total. Só que, contra isso, se levanta um argumento ético e moral. Como uma porcentagem expressiva da população que joga não é necessariamente compulsiva, estaria se limitando o acesso de pessoas que têm no jogo um lazer legítimo. Em relação ao pôquer especificamente, o psiquiatra Hermano Tavares é bastante taxativo: "A única maneira realmente segura de evitar a compulsão no pôquer é não apostar dinheiro, mas ninguém quer jogar dessa maneira. Então, o pôquer continua sendo um jogo de azar com potencial para causar compulsão." No sentido diametralmente contrário, nos Estados Unidos o professor Charles Nesson, pesquisador da Faculdade de Direito de Harvard, vem causando polêmica ao defender o ensino do pôquer para crianças. Uma das teorias defendidas pelo jurista é de que o pôquer seria mais recompensador doque o videogame, por exemplo. Para defender as suas idéias, em 2007 Nesson fundou a Global Poker Strategic Thinking Society (GPSTS) e tal qual uma espécie de profeta pós-moderno vem arrebanhando seguidores de suas teses. Para isso, não abre mão de sofismas como: "O pôquer oferece metáforas para uma gama de habilidades humanas e, por isso, pode ser uma ferramenta educacional." Pode até ser que se prove alguma razão nesse tipo de argumento no futuro, mas num país como o Brasil, onde o acesso a uma saúde pública básica é luxo para a maioria da população, as idéias do professor Charles Nessan podem soar um tanto esquizofrênicas. |
Autor: Marco Bessa |
24/3/2008 |